A ironia é evidente: enquanto o governo se apressa em implantar medidas que prometem a segurança digital, a história da indústria de tecnologia com dados pessoais é manchada por vendas ilícitas, vazamentos constantes e um desrespeito quase sistemático às legislações existentes. A LGPD, que deveria ser um bastião da proteção, é frequentemente tratada como uma piada de mau gosto, uma peça de teatro onde os protagonistas, as grandes empresas de tecnologia, continuam a atuar com total desprezo pelas normas. A sensação de que estamos vivendo uma comédia trágica é palpável, especialmente quando consideramos que o reconhecimento facial já faz parte das nossas vidas sem que tenhamos realmente concordado com isso.
Os recentes acontecimentos, como o pedido do ministro Gilmar Mendes por uma LGPD do Processo Penal, ressaltam a urgência de se abordar a proteção de dados de forma séria, sem que a lei se torne uma ferramenta de opressão. A proposta de um tratamento de dados na esfera criminal que não seja utilizado para fins de controle social ou linchamento moral é um passo importante, mas parece estar distante da realidade. A verdade é que a criminalização do tratamento de dados, em vez de proteger, pode acabar sendo mais uma forma de controle das massas, uma ideia que, ao invés de trazer segurança, pode resultar em um verdadeiro estado de vigilância.
As falhas na implementação da LGPD se tornam ainda mais claras quando analisamos casos como o da prefeitura do Rio de Janeiro, que, ao contratar uma empresa para gerenciar o cartão do transporte coletivo, permitiu que nossos dados fossem compartilhados com a Visa sem aviso prévio. Isso não é apenas uma violação da privacidade, mas uma demonstração gritante de que a LGPD, na prática, é facilmente ignorada. O que nos resta, então, quando a proteção se torna uma ilusão, e os dados pessoais são tratados como mercadorias?
A luta por uma internet mais segura para as crianças não deve significar a entrega irrestrita de nossos dados pessoais. O verdadeiro desafio reside em garantir que as empresas e o governo adotem medidas efetivas contra abusos, como a pedofilia, em vez de simplesmente coletar informações sem critério. O caminho a seguir deve ser um debate sério sobre como equilibrar a proteção de dados e a segurança, sem cair na armadilha de desproteger a privacidade em nome de um falso senso de segurança. Afinal, a proteção dos dados não deve ser apenas um slogan, mas uma realidade concreta, respeitada e defendida por todos nós.