A recente discussão sobre a utilização de dados sintéticos gerados por sistemas de inteligência artificial ilustra bem esse dilema. O que muitos não sabem é que, segundo a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, esses dados podem ser considerados pessoais se estiverem relacionados a indivíduos identificáveis. Essa complexidade adiciona uma camada de responsabilidade para as empresas, que agora precisam não apenas se preocupar com a coleta de dados, mas também com a forma como esses dados são gerados e utilizados. A linha entre inovação e violação de privacidade nunca foi tão tênue.
Entretanto, a resistência à LGPD não é apenas uma questão de descontentamento. Vários estudos e ofícios, como os encaminhados pelo Instituto de Defesa de Consumidores, apontam violações não apenas ao Código de Defesa do Consumidor, mas também ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e ao Marco Civil da Internet. Empresas que ignoram essas regulamentações não estão apenas desrespeitando a lei; estão colocando em risco a confiança do consumidor, um ativo que, uma vez perdido, é difícil de recuperar.
A ironia é que, enquanto alguns clamam contra a LGPD, a sociedade está cada vez mais consciente do valor de seus dados pessoais. O "unsubscribe" ? que muitas vezes é visto como uma mera formalidade ? é, na verdade, uma obrigação legal. A luta por transparência e controle sobre nossas informações pessoais não é apenas um desejo, mas uma exigência que a nova geração de consumidores está demandando com força.
Portanto, ao olharmos para o futuro, é crucial que as startups e empresas em geral entendam que o investimento em tecnologia não pode ser feito à custa da privacidade. A promessa de resultados rápidos não deve sobrepor a necessidade de conformidade com a LGPD. Em um mundo cada vez mais digital, a proteção de dados não é apenas uma questão legal, mas uma questão ética. A revolução da LGPD está apenas começando, e cabe a cada um de nós garantir que ela não se torne uma mera letra morta na legislação brasileira.