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LGPD: O Desafio da Transparência em Tempos de Proteção de Dados

Como a aplicação inadequada da LGPD pode ameaçar o acesso à informação pública.


Em um mundo onde as informações se tornam cada vez mais valiosas, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) foi criada com o intuito de proteger os cidadãos de abusos e garantir a privacidade de seus dados pessoais. No entanto, a aplicação dessa legislação frequentemente gera embates entre a necessidade de proteção e o direito à transparência, especialmente quando se trata de informações públicas. O dilema se intensifica quando cidadãos se deparam com barreiras na hora de acessar documentos legais, como certidões, que muitas vezes são censurados sob a justificativa da LGPD.

Recentemente, ao tentar obter uma certidão de nascimento, um cidadão se viu em uma situação frustrante. A instituição responsável exigiu comprovação de parentesco, alegando que a divulgação do documento poderia violar a privacidade da pessoa registrada. Essa situação levanta um questionamento crucial: até que ponto a proteção de dados pode e deve limitar o acesso à informação pública? Em meio a esse cenário, o parecer nº 00009/2022 da CGU nos lembra que a transparência e a proteção de dados podem e devem coexistir, sem que uma prejudique a outra.

A LGPD, em seu artigo 23, permite que o tratamento de dados pessoais pelo Poder Público ocorra para o cumprimento de obrigações legais. Isso significa que, em muitos casos, a transparência deve prevalecer sobre o sigilo. Além disso, a nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) reforça que contratos administrativos devem ser públicos, o que se choca com a prática de censura indiscriminada de informações. O verdadeiro desafio está em encontrar um equilíbrio que garanta a segurança dos dados sem cercear o direito do cidadão de acessar informações que lhe são devidas.

Infelizmente, as experiências de muitos cidadãos mostram que a LGPD, em vez de proteger, pode acabar gerando mais frustração. A aposentada que enfrenta ligações incessantes e mensagens invasivas vê sua privacidade comprometida, enquanto instituições se escudam na legislação para evitar responsabilidades. O ônus de reverter essa situação, muitas vezes, recai sobre o próprio beneficiário, que se vê diante de um labirinto burocrático sem a devida assistência.

O debate sobre a LGPD não deve ser apenas uma questão de proteção, mas também de responsabilidade e transparência. Como bem colocou Bruno Dantas, a falta de uma aplicação adequada da legislação pode ameaçar a própria democracia, ao impedir que a informação flua de maneira acessível. É hora de repensar como a proteção de dados pode andar de mãos dadas com a transparência, garantindo que os cidadãos não sejam privados de seus direitos em nome de uma proteção que se torna, muitas vezes, uma barreira.

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